Nesta sexta-feira (9), o Papa Leão XIV recebeu o Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé, em uma das audiências mais importantes do início do ano no Vaticano. O encontro, realizado na Sala das Bênçãos, reuniu cerca de 420 diplomatas, representantes de 184 países entre eles o Brasil, e organizações internacionais.
Em seu primeiro discurso ao Corpo Diplomático desde o início do pontificado, Leão XIV fez uma leitura crítica do atual cenário internacional e alertou para o que chamou de substituição da diplomacia do diálogo pela “diplomacia da força”. Segundo o Papa, o mundo vive um momento marcado pelo retorno da lógica bélica. “A guerra voltou a estar na moda e um fervor bélico está se alastrando. Foi quebrado o princípio, estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, que proibia os países de recorrerem à força para violar fronteiras alheias”, afirmou.
O Pontífice recordou eventos recentes da vida da Igreja, como o Jubileu recém-concluído e a morte do Papa Francisco, além de agradecer às autoridades da Turquia e do Líbano pela acolhida durante sua viagem apostólica. Ao refletir sobre o tempo atual, Leão XIV recorreu à obra A Cidade de Deus, de Santo Agostinho, destacando perigos como o nacionalismo excessivo, a distorção da história e o enfraquecimento dos valores que sustentam o bem comum.
Um dos pontos centrais do discurso foi a fragilidade do multilateralismo, com críticas à perda de força das instâncias internacionais de diálogo. O Papa ressaltou o papel da Organização das Nações Unidas, criada há 80 anos, como instrumento fundamental para a promoção da paz e a defesa dos direitos humanos. Ele também reafirmou a condenação da Santa Sé a qualquer forma de envolvimento de civis em conflitos armados.
Leão XIV manifestou preocupação com o uso da linguagem como instrumento de agressão, seja na política ou nas redes sociais, e alertou para ideologias que, sob o pretexto de inclusão, acabam gerando novas exclusões. Falou ainda da liberdade religiosa, condenou o antissemitismo e denunciou a crescente perseguição aos cristãos, que hoje atinge mais de 380 milhões de fiéis em diferentes regiões do mundo.
No campo geopolítico, o Papa pediu um cessar-fogo imediato na Ucrânia, defendeu a solução de dois Estados para o conflito na Terra Santa e expressou preocupação com crises em países como Haiti, Mianmar, Sudão e na região africana dos Grandes Lagos. Sobre a Venezuela, reforçou o apelo ao respeito à vontade popular e à defesa dos direitos humanos.
Ao final, Leão XIV alertou para os riscos do aumento dos arsenais nucleares e para os desafios éticos impostos pela inteligência artificial, defendendo uma governança responsável dessas tecnologias. O discurso foi encerrado com uma mensagem de esperança, inspirada em São Francisco de Assis: a paz, segundo o Papa, continua possível, desde que seja construída com humildade, verdade e coragem para o perdão.





