O Vaticano oficializou nesta quinta-feira (02), o decreto de excomunhão dos bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX). A medida é uma resposta direta às ordenações episcopais realizadas no dia 1º de julho em Écône, na Suíça, sem o mandato do Papa. O documento, assinado pelo cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, classifica a cerimônia como um “ato de natureza cismática”, configurando uma ruptura formal com a Igreja Católica.
A grave sanção canônica atinge diretamente os bispos que conduziram a ordenação, Alfonso de Galarreta e Bernard Fellay, e os quatro novos bispos consagrados: Pascal Schreiber, Michael Goldade, Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier.
Junto ao decreto, o Vaticano publicou uma Nota Explicativa detalhando as consequências práticas e abrangentes desta separação:
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Clero: Todos os sacerdotes pertencentes à Fraternidade encontram-se em situação de cisma e sujeitos à excomunhão.
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Fiéis Leigos: Aqueles que aderirem formalmente à Fraternidade também são considerados cismáticos e excomungados.
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Sacramentos: Os sacramentos administrados por esses padres passam a ser ilícitos. Especificamente, o sacramento da confissão e o matrimônio assistido por eles são considerados inválidos.
O documento orienta os católicos a se absterem de participar das celebrações promovidas pelo grupo, mas ressalta que a Igreja mantém as portas abertas para acolher aqueles que desejarem retornar à plena comunhão.
O cenário atual repete um cisma vivido pela Igreja há quase quatro décadas. A Fraternidade São Pio X foi fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, que rejeitava as reformas implementadas pelo Concílio Vaticano II, classificando-as como “novidades destruidoras”.
Após anos de tensões e tentativas de diálogo pelo Papa Paulo VI, um acordo doutrinal chegou a ser assinado em 1988 com o aval de João Paulo II. No entanto, Lefebvre recuou do compromisso e, em 30 de junho daquele ano, ordenou quatro bispos sem a permissão de Roma. O ato resultou na primeira excomunhão por cisma do grupo.
Décadas de Tentativas de Diálogo
Ao longo dos anos seguintes, diferentes pontífices buscaram restabelecer a unidade, oferecendo oportunidades de reconciliação:
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Bento XVI (2009): Em um esforço pela unidade, o Papa revogou a excomunhão dos bispos consagrados em 1988. O gesto, no entanto, esbarrou na recusa do grupo em assinar um preâmbulo doutrinal em 2011, que exigia a adesão ao magistério pontifício.
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Papa Francisco (2016): Durante o Jubileu da Misericórdia, o pontífice concedeu autorizações especiais para que os padres da Fraternidade pudessem ouvir confissões de forma válida, uma abertura pastoral voltada ao cuidado dos fiéis.
Apesar das concessões, a exigência dos lefebvrianos por uma revisão das diretrizes do Concílio Vaticano II sempre impediu um acordo definitivo e um reconhecimento jurídico pleno.
O Novo Cisma de 2026
A crise que culminou no decreto atual começou a se desenhar em fevereiro de 2026, quando a Fraternidade anunciou as novas ordenações. O Vaticano tentou intervir repetidas vezes. O cardeal Fernández propôs um caminho de diálogo teológico estruturado, condicionando o avanço à suspensão da cerimônia.
Na véspera das consagrações, o Papa Leão XIV enviou uma carta fazendo um apelo direto para que o grupo não “rasgasse a túnica de Cristo”. Sem sucesso, as ordenações ocorreram. Dias antes do desfecho, o Papa Leão XIV já havia comentado a iminência da separação, lamentando a divisão, mas ressaltando que, diante da rejeição de elementos fundamentais da Igreja, era necessário “seguir em frente”.





